Exemplo de ética e coragem, o presidente Itamar Franco precisou morrer para que evidenciasse o óbvio: a paternidade do Plano Real é, essencialmente, dele, pois, no lançamento do programa, era o Presidente da República. Mais: foi a sua obra que assegurou a façanha de ele fazer o seu sucessor, algo inédito na República.
Quem ganhou os louros foi o seu subordinado, Fernando Henrique Cardoso, que entrou no meio do jogo, quando as jogadas para ganhar a partida já estavam armadas e, praticamente, concluídas. Como diz o empresário e filósofo autodidata Sebastião Gomes, ninguém suporta um grande favor. Pagar? Não em preço. Teria que ser compensado com outro favor maior ainda. FHC não tem capacidade para tanto. É egoista, usurário e a vaídade não deixa. Itamar foi aparentemente derrotado pelo marketing eleitoral dos tucanos, articulado para FHC ganhar a eleição presidencial brilhantemente tendo como plataforma o sucesso da obra de Itamar.
As homenagens que o Senado, certamente, promoverá para o político mineiro, colocarão, evidentemente, os pingos nos is, removendo o mau-caratismo historico do tucanato, pródigo em faturar o sucesso dos outros. Se FHC tivesse no lugar de Itamar, teria a coragem deste e a sua generosidade de deixar o subordinado assinar a nova moeda, sabendo ser o tucano não dotado da simplidicade do mineiro, mas da vaidade do neoliberal global?
O mau-caratismo histórico existe e é amplo. As disputas de poder produzem-no às pampas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, deu uma de mau-caráter na morte do presidente Itamar Franco. Deixou de reconhecer o óbvio: que não foi ele, mas sim o seu chefe de governo que elaborou o Plano Real, digno de sonoridade histórica, capaz de eleger e reeleger FHC. O ex-presidente tucano deixou passar informação que falseia sobre sua participação na história. A paternidade do plano não é dele, mas do patrão dele.
Ora, quem era o presidente da República, aquele que tem a caneta na mão para assinar o lançamento do programa econômico que derrubaria a inflação, sobrevalorizaria a moeda nacional e ampliaria o endividamento público, levando, posteriormente, a economia a uma crise cambial? Sim, Itamar Franco. FHC era, apenas, Ministro da Fazenda.
Não foi ele e sua equipe que elaboraram a Medida Provisória que determinou as providências de estabilização inflacionária. A Exposição de Motivos Interministerial n. 205/MF/SEPLAN/MJ/MTb/MPS/MS/SAF, da MP do Plano Real, de 30 de junho de 1994, foi assinada pelos ministros Rubens Ricupero(Fazenda); Benedito Veras(Planejamento); Alexandre Dupeyrat(Justiça); Marcelo Pimentel(Trabalho); Sergio Cutolo(Previdência Social); Henrique Santillo(Saúde) e Romildo Canhim(Secretaria de Administração Federal). Essencialmente, a MP criava a URV que converteria para o real, em 30 de junho, todos os valores da economia, salários, preços, contratos etc, ao mesmo tempo que estabelecia a paridade real/dólar em 1 por 1. Fernando Henrique Cardoso entraria na história porque o ministro Ricupero se lascou por conta de um escorregão histórico. Fora dar uma entrevista ao repórter Carlos Monfort , da Rede Globo, sobre a façanha histórica contida nas articulações governamentais, técnicas e políticas, para o lançamento da nova moeda, e falou besteira. O microfone estava ligado no intervalo da gravação, fora do ar, quando o ministro declarou, expondo questão ética, segundo a qual as notícias boas são apresentadas às claras, enquanto as ruins são escondidas. Demonstrou surpreendente inescrupulosidade que haveria de lhe custar o cargo.
O presidente Itamar, pego no contrapé do escândalo, não teve outro jeito senão o de preservar sua coerência ética. Mandou seu titular da Fazenda para casa mais cedo. Havia feito isso antes com o ministro Henrique Hargreaves, da Casa Civil, acusado de corrupção. Demitiu-o e mandou investigar. As investigações revelaram inexistência de provas. Hargreaves voltou ao cargo com toda a moral. Configurou-se um belo momento da administração Itamar: seu compromisso com a ética e a ojeriza à corrupção. Já em relação a Ricupero não deu para repetir a manobra. A gravação fora ao ar, divulgada à exaustão, tendo um Monfort presenciando, atônito, a derrubada ministerial, por culpa de um microfone aberto. Como desmentir a inescrupolosidade ministerial praticada ao vivo e a cores?

Tremendo constrangimento. O que fez o titular do Planalto naquele momento? Teve que buscar, urgentemente, uma solução. Afinal, a medida provisória que criava a nova moeda já estava assinada por sete ministros. Seria a gloria de Itamar. Ricupero, na hora da sua desgraça política, falava, justamente, sobre a obra prima econômica itamariana. Os planos tiveram que ser alterados. Itamar Franco, como disse, teve um estalo. Lembrou de Fernando Henrique Cardoso, expoente do PSDB, então Ministro das Relações Exteriores, para substituir Ricupero.
FHC seria pego de surpresa, numa noite, num hotel, em Nova York, onde se encontrava em missão diplomática, feliz da vida com o seu cargo honorífico, que o projetava internacionalmente, satisfazendo sua autoassumida vaidade, acompanhada de reconhecida competencia como político e sociólogo brasileiro de fama global. A história diz o resto. FHC assumiria a Fazenda, substituiria a equipe de Ricupero. Montaria sua própria equipe.
Preservou, no Banco Central, Gustavo Franco. A ele se somaram Pedro Malan, Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha entre outros eminentes economistas, cujas cabeças haviam sido feitas pela ortodoxia monetarista das escolas americanas, subordinadas, naquela ocasião, ao pensamento neoliberal expelido pelo Consenso de Washington e pelo Fundo Monetário Internacional, a serviço da bancocracia internacional, preocupada com a hiperinflação brasileira, desatada pela crise monetária americana dos anos de 1980, produzida pela desvalorização do dólar.
FUGA DA VERDADE
A vaidade excessiva de FHC impediu que tivesse a humildade de Itamar: reconhecer a verdade. Negou-se, mesmo diante da morte do ex-presidente, que o autor do Plano Real fora este, na condição de presidente, e não ele, então subordinado do presidente como ministro da Fazenda. Pior: a obra já estava pronta, elaborada pela equipe comandada pelo ex-minstro Rubens Ricupero, que perdeu o cargo por ter escorregado em declaração-bomba feita diante de microfones abertos em entrevista ao repórter Carlos Monfort, da Rede Globo, onde reconheceu que praticava inescrupulosidades - o que é bom a gente divulga, o que não é a gente esconde. Disse isso e caiu. Quando FHC o substituiu o Plano Real já estava pronto em forma da Exposição de Motivos n. 205, assinada por sete ministros em 30 de junho de 1994. FHC faltou com a verdade histórica.

A base do trabalho da equipe de FHC estava dada, expressa na MP 205 de 30 de junho de 1994, elaborada pela equipe de Itamar Franco. Os efeitos positivos do Plano Real começaram a acontecer antes dele nascer. O lançamento da URV(Unidade Real de Valor), em junho de 1993, atuando como segunda moeda ao lado do cruzeiro real, antes da conversão para o real, começara a produzir estabilização monetária evidente, demonstrando que, assim que ocorresse o lançamento oficial da nova moeda, o governo estouraria a boca do balão em termos populares. O que fizeram FHC e sua equipe? Lançaram o real em agosto de 1994, dois meses antes da eleição presidencial, em que FHC era candidato com o aval de Itamar.
Como o presidente deixou FHC assinar a nova moeda em vez de ele mesmo fazê-lo, porque essa era sua prerrogativa como chefe de governo, responsável pelo lançamento da nova política monetária, o efeito de marketing político favoreceu, não Itamar, mas FHC, como Pai do Real. Todos os requintes profissionais para o sucesso de uma candidatura presidencial estavam dados naquele evento histórico. FHC seria eleito e, em seguida, reeleito, porque haveria de patrocinar a emenda da reeleição no Congresso, cuja tramitação e aprovação continuam, até hoje, carregadas de presságios e acusações de que teria sido comprada a peso de ouro. Itamar , evidentemente, amargaria tremendo arrependimento, pois saiu da história presidente menor diante do ministro maior.
Não fora o presidente da República o responsável pelo nascimento da moeda que reverteria a hiperinflação, mas o seu ministro, seu subordinado, graças a um competente marketing eleitoral. O mau-caratismo histórico de FHC é justamente o de não dar o crédito ao seu patrão, mas a si mesmo. Nem na hora da morte de Itamar, nesse sábado, ele teve a honestidade intelectual de esclarecer o que os documentos – a Exposição de Motivos N. 205, de 30 de junho de 1994 – comprovam, cabalmente.
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| No velório, FHC volta a se apropriar do Real |
De resto, Itamar Franco vai para a história, menos por ser o pai, verdadeiro, do real, mas porque sobressaiu-se como presidente eminentemente ético e corajoso. Não rolou corrupção no seu governo. Do ponto de vista da ética, ele representa, mais do que nunca, uma lição para a presidente Dilma Rousseff, que está cercada de espertos por todos os lados, como evidenciaram as jogadas de corrupção em marcha no Ministério dos Transportes, obrigando-a demitir toda a cúpula ministerial. Teria que ser mais radical, como foi Itamar, mandando embora o Ministro e não apenas os seus assesores, até que as investigações sobre as denúncias veiculadas pela revista Veja, nessa semana, sejam confirmadas ou não. Além disso, Itamar revelou grande coragem. Recusou a pagar dívidas externas do governo de Minas Gerais, quando governador, com o suor dos trabalhadores, materializando a pregação de Tancredo Neves. Recebeu o governo sem caixa e suspendeu o pagamento das dívidas, renegociando-as todas, até dispor de condições para começar a saldá-las. Não é verdade que o ex-presidente tenha sido adversário das privatizações.
O Programa de Ação Imediata – PAI – que elaborou , em junho de 1993, contendo as medidas de austeridade fiscal e monetária, preparatórias para desembocar na nova moeda, um ano depois, previa privatizações amplas e participação do capital externo nos negócios, bem como abria o mesmo para os trabalhadores por meio de um fundo de privatizações. A reação dele às privatizações nomeadas por FHC, notadamente, a tentativa de vender Furnas, criando caso internacional, mobilizando tropas da polícia militar mineira, pode ser interpretada como demagógica, além de carregada de ressentimentos pelo que considerou traição o comportamento de FHC por não ter reconhecido o verdadeiro Pai do Real. Mas, enfim, ética e coragem foram as marcas registradas do ex-presidente mineiro. Trata-se de grande exemplo para o Brasil, hoje , rendido aos interesses dos credores que se transformaram nos agiotas que escravizam, brutalmente, o povo brasileiro, sob silêncio de uma classe política sem fibra.
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