quinta-feira, 14 de julho de 2011

Hoje na História: 1099 - Cavaleiros capturam Jerusalém na primeira Cruzada


Iluminura do Concílio de Clermont
A Primeira Cruzada foi proclamada em 1095 pelo papa Urbano II com o objetivo duplo de auxiliar os cristãos ortodoxos do leste e libertar Jerusalém e a Terra Santa do jugo muçulmano. Na verdade, não foi um único movimento, mas um conjunto de acções bélicas de inspiração religiosa, que incluiu a Cruzada Popular, a Cruzada dos Nobres e a Cruzada de 1101.

Começou com um apelo do Imperador Bizantino Aleixo I Comneno ao papa para o envio de mercenários para combater os turcos seljúcidas na Anatólia. Mas a resposta do cristianismo ocidental rapidamente se tornou em uma verdadeira migração de conquista territorial no Levante. Nobreza e povo de várias nações da Europa Ocidental fizeram a peregrinação armada até à Terra Santa, por terra e por mar, e tomaram a cidade de Jerusalém em Julho de 1099, criando o Reino Latino de Jerusalém e outros estados cruzados.

A Primeira Cruzada representou um marco na mentalidade e nas relações de cristãos ocidentais, cristãos orientais e muçulmanos. Apesar das suas conquistas terem eventualmente sido completamente perdidas, também foi o início da expansão do ocidente que, juntamente com a Reconquista da Península Ibérica, resultaria na aventura dos descobrimentos e no imperialismo ocidental.

Partindo da França em 1096 atendendo à conclamação do papa Urbano II, os cruzados comandados por Godefroi de Bouillon e pelo conde de Toulouse entram em Jerusalém em 14 de julho de 1099. Durante esta Primeira Cruzada, os cavaleiros cristãos da Europa capturaram Jerusalém após sete semanas de cerco. Todos os defensores da cidade, muçulmanos ou judeus, são massacrados. A tomada da Cidade Santa provocou a morte de cerca de 100 mil pessoas. Nascia o reinado latino de Jerusalém. Godefroi de Bouillon assume a administração da cidade com o título de procurador do Santo Sepulcro.

Os cristãos em Jerusalém vinham sendo crescentemente perseguidos, a partir do século XI, pelos governantes islâmicos, especialmente quando o controle da Cidade Santa passou dos relativamente tolerantes egípcios aos turcos seljuk em 1071. No fim do século, o imperador bizantino Alexius Comenus, também ameaçado pelos turcos, apelou ao Ocidente por ajuda. Em 1095, o papa Urbano II pediu que fosse organizada uma Cruzada a fim de ajudar os cristãos orientais a retomar as terras sagradas. A resposta dos europeus ocidentais foi imediata.

Os primeiros cruzados eram na verdade hordas indisciplinadas de camponeses franceses e germânicos que tiveram pouco sucesso. Um grupo, conhecido como “Cruzada do Povo” chegou a Constantinopla antes de ser aniquilado pelos turcos. Em 1096, a principal força cruzada, constituída de cerca de 4 mil cavaleiros montados e 25 mil infantes, começou a mover-se para leste. Comandado por Raymond de Toulouse, Godfrey de Bouillon, Robert de Flandres e Bohemond de Otranto, o exército de cavaleiros cristãos cruzou a Ásia Menor em 1097.

Em junho, capturaram a cidade fortificada turca de Niceia e em seguida derrotaram um numeroso exército de turcos seljuks em Dorilaeum. Desta localidade marcharam para Antióquia, situada às margens do rio Orontes, debaixo do Monte Silpius. Deram início a um difícil sítio de seis meses durante o qual repeliram diversos ataques de tropas turcas que vieram em socorro. Finalmente na manhã de 3 de junho de 1098, Bohemond persuadiu um traidor turco a abrir os portões da Ponte de Antioquia e os cavaleiros puderam penetrar na cidade.

Num verdadeiro banho de sangue, os cristãos massacraram milhares de soldados inimigos e cidadãos comuns e a cidadela fortificada da cidade quase foi tomada. Mais tarde no mesmo mês, um grande exército turco chegou para tentar reconquistá-la, porém foram derrotados e a cidadela capitulou definitivamente diante dos europeus.

 Após a reorganização das tropas e descanso de seis meses, os cruzados dirigiram-se para o seu objetivo final, Jerusalém. O contingente já se havia reduzido para 1200 cavaleiros e 12 mil infantes. Em 7 de junho, as tropas cristãs atingiram a Cidade Santa e encontrando-a bastante fortificada, trataram de construir três altas torres nas aforas a fim de apoiar a invasão. Na noite de 13 de julho, as torres estavam concluídas e os cristãos começaram a investida contra os muros de Jerusalém. Em 14 de julho, os homens de Godfrey foram os primeiros a penetrar nas defesas e a Porta de Santo Estevão foi aberta. O restante dos cavaleiros e soldados penetrou, a cidade foi capturada e dezenas de milhares de seus habitantes, selvagemente massacrados.

Os cruzados atingiram a meta e Jerusalém estava em suas mãos. Poucas semanas depois, um exército egípcio marchou sobre a Cidade Santa para desafiá-los. A derrota, em agosto, dos egípcios para os cristãos, superiores em número, pôs fim à resistência muçulmana. Cinco pequenos Estados foram criados na região sob o governo dos líderes da Cruzada.

Soneto

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

Gregório de Matos

Enfrentar a crise da dívida na Europa

Com eles conseguiram aumentar, entre 2007 e 2009, seus empréstimos a vários países da zona do euro (Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha), dos quais obtiveram esplêndidos lucros produzidos por elevadas taxas de juros. A título de exemplo: entre junho de 2007 (começo da crise dos subprime) e setembro de 2008 (quebra do Lehman Brothers), os empréstimos bancários privados da Europa ocidental para a Grécia tiham aumentado 33%, passando de 120 bilhões a 160 bilhões de euros.

Os banqueiros da Europa ocidental se acotovelaram para outorgar empréstimos à periferia da União Europeia, que desejava endividar-se. Não contentes de arriscar-se de maneira extravagante do outro lado do Atlântico no mercado dos subprime com o dinheiro confiado pelos poupadores, repetiram a mesma operação na Grécia, em Portugal, na Espanha… Efetivamente, o pertencimento de alguns países da periferia à zona do euro convenceu os banqueiros dos países do oeste europeu de que os governos, o BCE e a Comissão Europeia os ajudariam em caso de problemas. E não se equivocaram.

Quando a zona do euro foi sacudida por fortes turbulências, a partir da primavera de 2010, o BCE emprestava a juros vantajosos de 1% aos bancos privados, que por sua vez exigiam a países como a Grécia juros superiores, entre 4% e 5% para empréstimos com prazo de três meses, e de cerca de 12% para os títulos com vencimento para 10 anos.

Os bancos e os outros investidores institucionais justificaram tais exigências pelo risco de cessação de pagamentos que pesava sobre os chamados países de risco. Uma ameaça tão forte que as taxas de juros aumentaram consideravelmente: o empréstimo concedido pelo FMI e pela União Europeia à Irlanda em novembro de 2010 alcançava 6,7%, contra 5,2% concedido à Grécia seis meses antes.

Em maio de 2011, a taxa de juros para a Grécia, para empréstimos com prazo de 10 anos, ultrapassava 16,5%, o que obrigou este país a tomar empréstimos com prazos de três a seis meses, ou dirigir-se ao FMI ou a outros países europeus. Desde então, o BCE deve garantir as dívidas dos bancos privados comprando-lhes os títulos dos Estados… aos quais, em princípio, está proibido de emprestar diretamente.

Para tratar de diminuir os riscos, os bancos franceses diminuiram em 2010 sua exposição na Grécia, que se reduziu em 44%, passando de US$27 bilhões a US$15 bilhões. Os bancos alemães efetuaram um movimento similar: sua exposição direta baixou 60% entre maio de 2010 e fevereiro de 2011, passando de US$16 bilhões a US$10 bilhões. Foram o FMI, o BCE e os governos europeus os que substituíram progressivamente os bancos e outras entidades financeiras privadas. O BCE possui de forma direta 66 bilhões de euros de títulos gregos (ou seja, 20% da dívida pública grega) que adquiriu no mercado secundário aos bancos. Ainda que, até maio de 2011, o FMI e alguns governos europeus já tenham emprestado 33 bilhões de euros, seus empréstimos continuaram aumentando.

Mas isso não para por aí. O BCE aceitou dos bancos gregos 120 bilhões de euros em títulos da dívida grega como garantias (colaterais) de empréstimos que tinha concedido com uma taxa de juros de 1,25%. O mesmo procedimento se reproduziu com a Irlanda e Portugal.

Portanto, encontramo-nos diante de todos os ingredientes da gestão da crise da dívida do Sul, mediante o Plano Brady. No início da crise que eclodiu em 1982, o FMI e os governos das grandes potências, Estados Unidos e Grã-Bretanha à frente, foram ao resgate dos bancos privados do Norte que tinham se arriscado enormemente emprestando, de forma compulsiva, aos países do Sul, sobretudo na América Latina. Quando países como o México se encontraram à beira da cessação dos pagamentos como resultado do efeito combinado do aumento das taxas de juros e do descenso nas receitas de exportações, o FMI e os países membros do Clube de Paris lhes concederam empréstimos, com a condição de que continuassem reembolsando suas dívidas e que aplicassem planos de austeridade (os famosos planos de ajuste estrutural).

Mas, como o endividamento do Sul aumentava como uma bola de neve (como está ocorrendo neste momento na Grécia, Irlanda, Portugal, e em outros países da União Europeia), puseram em marcha o Plano Brady (do nome do então secretário do Tesouro dos Estados Unidos) que implicou uma reestruturação da dívida dos principais países endividados mediante um intercâmbio de títulos. O volume da dívida se reduziu em 30% em certos casos e os novos títulos (os títulos Brady) garantiram uma taxa de juros fixa de cerca de 6%, o que foi muito favorável para os banqueiros. Isso também assegurou a execução das políticas de austeridade sob o controle do FMI e do Banco Mundial.

Contudo, a longo prazo, o montante da dívida aumentou e as somas a reembolsar foram enormes. Se se tem em conta somente o saldo líquido entre as somas emprestadas e as reembolsadas desde a implantação do Plano Brady, os países em desenvolvimento transferiram aos credores o equivalente a mais de seis planos Marshall, quer dizer, cerca de US$ 600 bilhões. Não seria necessário evitar que suceda algo similar? Por que se deve aceitar que os direitos econômicos e sociais dos povos sejam uma vez mais sacrificados no altar dos banqueiros e de outros atores dos mercados financeiros?

Segundo os bancos de investimentos Morgan Stanley e J.P. Morgan, em maio de 2011, os mercados consideravam que havia 70% de probabilidade de que a Grécia entrasse em cessação de pagamentos, contra 50% dois meses antes. Em 7 de julho de 2011, o Moody’s colocou Portugal na categoria de dívidas de alto risco. Uns dias depois, os especuladores atacavam a Itália. Portanto, temos uma razão suplementar para pedir a anulação: é necessário auditar as dívidas, com participação cidadã, a fim de anular a parte ilegítima.

Se não se toma esta opção, as vítimas da crise sofrerão perpetuamente uma dupla condenação em benefício dos verdadeiros culpados, os banqueiros. Vê-se isto perfeitamente na Grécia: as curas de austeridade se sucedem sem que melhore a situação das contas públicas. O mesmo ocorrerá com Portugal, Irlanda, Espanha… Uma grande parte da dívida é ilegítima, uma vez que provém de uma política que tem favorecido uma ínfima minoria da população em detrimento de uma esmagadora maioria de cidadãos e cidadãs.

Nos países que assinaram acordos com a Troica, as novas dívidas não são apenas ilegítimas mas também odiosas e isto se deve a três razões:

1) Os empréstimos estão eivados de condições que violam os direitos econômicos e sociais de uma grande parte da população.

2) Os credores fazem chantagem a esses países (não há uma verdadeira autonomia de vontade do país que necessita do empréstimo).

3) Os credores enriquecem de forma abusiva impondo taxas de juros proibitivas (por exemplo, a França e a Alemanha tomam empréstimos a 2% nos mercados financeiros e emprestam a mais de 5% à Grécia e à Irlanda; os bancos privados obtêm empréstimos a 1,25% do BCE e emprestam a Grécia, Irlanda, Portugal a mais de 4% por três meses). Estes países ou os do Leste europeu (e, fora da União Europeia, países como a Islândia), ou seja, aqueles que são submetidos à chantagem dos especuladores, do FMI e de outros organismos, como a Comissão Europeia, deviam recorrer a uma moratória unilateral do pagamento da dívida pública. É um meio inevitável para conseguir criar uma correlação de forças favorável. Esta proposta é cada vez mais popular nos países mais afetados pela crise.

Também, se deveria efetuar, sob controle cidadão, uma auditoria da dívida pública. O objetivo da auditoria é conseguir uma anulação/repúdio da parte ilegítima ou odiosa da dívida pública e reduzir fortemente o que reste de dívida.

A redução radical da dívida pública é uma condição necessária mas não suficiente para que os países da União Europeia saiam da crise. É necessário completá-la com toda uma série de medidas de grande amplitude nos diferentes âmbitos (fiscal, transferência das finanças ao domínio público, ressocialização de outros setores-chave da economia, redução do tempo de trabalho com a manutenção dos salários e contratação compensatória, etc.).

A flagrante injustiça que domina as políticas regressivas atualmente implantadas na Europa alimenta a poderosa mobilização de indignados na Espanha na Grécia ou em outras partes. Graças a estes movimentos, que se inspiraram nos levantes populares do Norte da África e do Oriente Médio, estamos vivendo uma aceleração da história. A questão da dívida pública deve ser enfrentada de maneira radical.

Damien Millet é porta-voz do Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM) na França e Eric Toussaint é presidente do CADTM na Bélgica.

Ricardo Teixeira, o Rei da Bolada

O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, está conseguindo ir além do que se previa para seus mandatos de ladroagem. A gangue, chefiada pelo seu sogro, João Havelange, comanda a FIFA há décadas, num suceder de malabarismos, mas agora coloca em risco o próprio futebol.

No livro "Os Descaminhos do Futebol", publicado há dez anos, eu já contava a história dessa dinastia. Mostrava, inclusive, como o então falido empresário Ricardo Teixeira entrou no mundo do futebol, pelas mãos de seu então sogro, mas eterno aliado, João Havelange, com ajuda de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

Vale aqui, desde logo, um parêntese, para refrescar a memória. Havelange foi atleta de pólo aquático, e até representou o Brasil em competições internacionais, como as Olimpíadas de Melbourne, em 1956.

Mas, desde 1937, mesclava sua atividade esportiva com as de dirigente de entidades esportivas e de empresário. Era dono de loja de armas no Rio de Janeiro, e, também, da empresa de ônibus interestadual Cometa.

Ele se elegeu presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) em 1956. A parte de futebol, porém, ficava com o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho, que levou o Brasil à vitória na Copa de 1958, foi chamado pela mídia de "Marechal da Vitória" e homenageado pelo presidente Juscelino Kubitschek em monstruosa festa no Pacaembu, em São Paulo. E repetiu o feito no Chile, na Copa de 1962.

Havelange sequer foi às duas copas. Mas, vendo que o futebol era o filé dos cifrões nos desportos, expulsou Paulo Machado e assumiu o setor. No processo da Copa de 66, aprontou mil e umas. Montou um time com 45 jogadores para rodar o mundo e, na competição mesmo, obteve o retumbante fracasso que todos conhecemos e amargamos.

Pelé foi peça chave para eleger Havelange presidente da FIFA, em 1974. Ele ajudou a realizar, aqui, o "mundialito" de 72, uma mini-copa, sem a participação dos europeus.

E rodou o mundo criando entidades esportivas nacionais (as CBFs de países africanos e asiáticos). Assim, granjeou votos para Havelange se eleger, no plano global.

No "mundialito", a CBD gastou perto de 25 milhões de dólares, vindos dos cofres públicos, o que chegou a irritar até o então presidente, general Ernesto Geisel. Mas ali começou o processo de separação do futebol dos esportes olímpicos, com a criação da CBF e do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), dividindo a CBD.

Mas Havelange não desistiu. Refez relações com Pelé, que estavam abaladas, para colocar seu genro na CBF. A história já estava no livro:

"Ainda em 93, nas eliminatórias da Copa dos EUA, quando o Brasil ia aos trancos e barrancos, a imprensa assediou Teixeira, antes do jogo contra o Uruguai, no Maracanã. Um repórter perguntou:

- E se o Brasil for desclassificado?

Teixeira foi curto e grosso:

- Pra mim, nada. Vocês é que vão ter problemas, porque não vão ter o que fazer. Eu sou um homem rico.

Diante do dito, o jornalista Armando Nogueira recheou seu texto, sempre brilhante, com uma frase que resumia tudo, e entrou pra história: 'Sou um homem rico, não. Fiquei rico'.

Ficou rico, rapidinho, na CBF. Foi vapt-vupt.

Pelé contou inúmeras vezes que, quando Havelange lhe procurou para propor o nome de Teixeira para a CBF, seu argumento tinha dois pilares básicos. Um: embora sendo de outro ramo, seu genro tinha boas idéias para o futebol brasileiro. Dois: além disso, enfrentava dificuldades como empresário.

Digamos que Teixeira precisava ganhar a vida num novo território, já que como empresário não estava dando certo. E justo na CBF, onde, por lei, dirigentes não poderiam ser remunerados.

Quatro anos depois, ele mesmo já se dizia um homem rico, que não estava nem aí para os resultados da Seleção.

É bom se antenar para o conceito de "rico" que essa gente tem, que não é pouca brincadeira. Fortuna igual à que Ricardo Teixeira granjeou em menos de uma década, muita gente da elite brasileira só conseguiu depois de quatro ou cinco gerações. É dinheiro fácil, rápido, sem assepsia.

Mas aí entra a sorte – ou um traço da cultura brasileira. Como na política há a máxima "rouba, mas faz", notabilizada por Adhemar de Barros, quando governador de São Paulo, no futebol os resultados também sublimam os atos de dirigentes corruptos.

Pois foi assim que se safou, à época, Ricardo Teixeira. Pouco tempo depois das denúncias de Pelé, o Brasil ganhou a Copa de 94, e virou tetracampeão. Ninguém mais queria saber de propinas que rolavam soltas na CBF.

Pra quem já nadava de braçadas, a correnteza ficou ainda mais favorável – e a CBF se emporcalhou de vez. Tudo o que se pode imaginar de ruim virou o cotidiano da entidade máxima do futebol brasileiro. Um mal que contaminou federações estaduais e metropolitanas, e clubes.

Um indicativo de que o resultado da Copa de 94 havia aberto de vez as porteiras da prepotência ocorreu logo em seguida. O avião que trouxe a Seleção de volta para o Brasil virou uma nau contrabandista, algo de fazer inveja aos piratas de séculos atrás.

O vôo da direção da CBF e seus convidados, que incluía os jogadores da Seleção, trazia 17 toneladas de carga. No entender dos dirigentes, diante de tanta alegria da conquista, não haveria razão para os fiscais da alfândega empombarem com tão sutil contrabandozinho.

Mas não deu certo. O caso virou escândalo internacional, já que era um prato feito para a imprensa de países que amargavam a derrota na Copa. As conversas ríspidas de Teixeira com funcionários da Receita foram registradas pela TV e indignaram o Brasil inteiro.

Primeiro, ele ameaçou voltar para os EUA com toda a comitiva. Depois, conseguiu que a carga fosse levada a um hotel do Rio de Janeiro. Ali, integrantes da comitiva declararam algumas compras que traziam. Teixeira declarou uma sela de montaria e eletrodomésticos.

Pelo acordo feito com a Receita, a própria CBF fez um inventário dos bens que vinham na carga – e pagou o imposto de tudo, independente de quem fosse. Só que o peso total dos produtos declarados era de pouco mais de mil quilos. As outras 16 toneladas, ninguém sabe, ninguém viu.

Em verdade, porém, pelo menos parte da enorme carga apareceria poucos meses depois, quando foi inaugurada a luxuosa e bem equipada boate-restaurante El Turf, no Rio. Seu proprietário: Ricardo Teixeira."

O patrimônio de Teixeira, hoje mostrado em algumas redes de TV, é de fazer inveja a qualquer milionário do mundo. Ele faz da CBF uma entidade mais que privada. É particular. Se, há dez anos, atrás estava do jeito aí relatado, hoje é muito pior, mas não há punição, não há nada.

Se a Seleção for bem ou mal na Copa América ou em 2014, na Copa do Mundo, no Brasil, Tanto faz.

Mas é possível moralizar os esportes no Brasil. E isso começa por ações enérgicas contra os mais descarados bandidos do setor, e o primeiro deles é Ricardo Teixeira. Havelange, pelo avançado da idade, pode até morrer em paz.

Jaime Sautchuk - Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, O Estado de S.Paulo, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.