quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dá-me a tua mão

(Di Cavalcanti )
Dá-me a tua mão: 
Vou agora te contar 
como entrei no inexpressivo 
que sempre foi a minha busca cega e secreta.  

De como entrei 
naquilo que existe entre o número um e o número dois, 
de como vi a linha de mistério e fogo, 
e que é linha sub-reptícia. 

Entre duas notas de música existe uma nota, 
entre dois fatos existe um fato, 
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam 
existe um intervalo de espaço, 
existe um sentir que é entre o sentir 
- nos interstícios da matéria primordial 
está a linha de mistério e fogo 
que é a respiração do mundo, 
e a respiração contínua do mundo 
é aquilo que ouvimos 
e chamamos de silêncio. 


Clarice Lispector

Se conselho fosse bom…

O “Financial Times” e o FMI dão hoje o mesmo conselho ao Brasil: “tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas vocês precisam botar o pé no freio”. 

É mais ou menos a tradução que se pode fazer do que disseram:

“O desafio para o Brasil é como administrar seu sucesso”, diz o FT, segundo a BBC.

“As perspectivas para a economia brasileira são positivas, mas há sinais de superaquecimento, avaliou o Fundo Monetário Internacional”, segundo a Agência Reuters.

Ora, como diria o Nélson Rodrigues, até as pedras da calçada sabem que os riscos e problemas agudos da economia brasileira não são os internos, mas o do mundo desenvolvido que estes nossos “muy amigos” representam.

Não há pressão inflacionária interna – exceto a do etanol – digna de significação, o que há é pressão cambial sobre os juros brasileiros, porque não há o que fazer com o capital sobrante no mundo desenvolvido, cuja economia virou um atoleiro.

Parece que a Presidenta Dilma Roussef estava adivinhando que nos dariam estes conselhos e já dispensou a ajuda, em seu discurso de ontem:

Aos que pensam que, em um momento de incerteza internacional como o que vivemos, o mais prudente é não agir e esperar a onda passar, eu contra-argumento, amparada na experiência que tivemos durante o período do governo do presidente Lula, em 2008 e 2009: é justamente em uma situação de tensões no mundo que devemos mostrar, além do indispensável bom senso, uma boa dose de ousadia. 

Em 2008, enfrentamos a crise com desonerações e estímulos ao consumo. Hoje a situação é outra, mas não estamos dispensados de ser ousados. É claro que não vamos abdicar dos fundamentos do nosso modelo de desenvolvimento, baseado no controle da inflação, no rigor fiscal, no crescimento econômico com inclusão social e na preservação do nosso mercado interno. Mas este é, sem dúvida, o momento certo para desenvolver tecnologia e inovação. Este é o momento certo de agregação de valor na indústria nacional.”

É isso aí. Nosso mercado, nossa indústria, nossos empregos, nossa renda e nosso consumo são os combustíveis para fazer a roda girar. Se abrirmos mão deles, se frearmos demais o carro, voltamos a ser o Brasil da Roda Presa.

DE VOLTA A 1937?

ARROCHO FISCAL NOS EUA VAI DESACELERAR A ECONOMIA GLOBAL. CONVULSÃO NA ZONA DO EURO. 
 
Esse ambiente pede mais gastos governamentais para dar sustentação à economia - e não menos, como ao que tudo indica vai acontecer. Ou políticos de Washington se esqueceram dessa lição da história ou nunca se preocuparam em aprendê-la. Na sua campanha de reeleição, em 1936, Franklin Delano Roosevelt foi pressionado pelos republicanos para aumentar impostos e cortar gastos para reduzir o déficit orçamentário. Ele aceitou, e acabou empurrando a economia para outra recessão. E, é claro, o maior de todos os erros de política governamental foi aquele cometido por Herbert Hoover em 1930. Mesmo com a economia afundando, ele decidiu subir impostos e cortar gastos, imaginando que isso restauraria a confiança empresarial. Em vez disso, aconteceu o contrário: com o governo retirando poder de compra da economia, a manobra ajudou a transformar a recessão de 1929 na Grande Depressão dos anos 30.Para saber para onde a economia está indo, é bom prestar atenção nas palavras do filósofo espanhol George Santayana: "Quem não consegue se lembrar do passado está condenado a repeti-lo" (Down Jones) 
 
(Carta Maior; 5ª feira, 04/08/ 2011)