Na última semana de agosto, o artigo (FSP, 20/08/2011) do
senador Aécio Neves faz um exercício primário com números, estabelecendo
rankings a torto e a direito, sem qualquer preocupação de
correlacioná-los a déficits históricos em termos de política industrial
no país, além de políticas de fomento à ciência e tecnologia,
qualificação profissional etc. Vale lembrar que a abertura das
fronteiras comerciais, no frenesi neoliberal, teve largo impulso com o
governo FHC (do qual Aécio foi um dos principais líderes). Isso
contribuiu muito para os números que ele agora replica. O sucateamento
de universidades e da pesquisa científica também. Dos CEFETs, idem.
Talvez seja por isso que, ao falar de números, os expõe com um
padrão de aleatoriedade tal, que reprovaria qualquer estudante de
economia do terceiro período da PUC/MG. Mas o nosso bacharel nessa
ciência econômica não se preocupa muito, nem com ciência, nem com
coerência.
Para não dizer que o Movimento Minas Sem Censura vive de
implicâncias com ele, passamos a palavra ao presidente da Federação das
Indústrias do Estado de Minas Gerais/FIEMG, Olavo Machado, que em
seminário realizado na Assembleia Legislativa mineira, expôs os
verdadeiros números da economia regional. Suas palavras iriam provocar
um “choque de realidade”, se a imprensa local resolvesse divulgá-los.
Criticando “os discursos grandiosos” sobre a economia mineira, o
insuspeito presidente da FIEMG traça um quadro dramático de Minas. Em
termos bem sintéticos e esquemáticos, eis o diagnóstico que ele faz do
estado governado pelo tucano Aécio Neves, por sete anos e três meses:
Nos próximos 20 anos, o Mundo e o Brasil crescem, e Minas não está
preparada para disputar mercados. Falta investimento em inovação,
infraestrutura, logística, em capacitação e formação profissional,
ausência de política estadual de crédito etc, que geram perda de
competitividade e consolidam nossa dependência da exportação de
commodities (minério e produtos agrícolas).
Das 120 mil empresas industriais do estado, 62 mil “não geram
emprego algum na indústria”; 30 mil possuem “de 1 a 4 empregos”; 22 mil
tem até 29 empregos formais em cada unidade; em suas palavras “mais de
90% desse universo imenso de empresas não apresenta produtividade,
escala e inovação em processos e produtos para operar e concorrer
globalmente”. E ressalta que os indicadores da economia brasileira
demonstram a ampliação exponencial do consumo de massa, o que exigiria
“um efetivo e consistente processo de desenvolvimento econômico e
social”, para que Minas disputasse parcela desse mercado emergente.
A produtividade da “nossa indústria” está 5% abaixo da média
brasileira e 20% da paulista, e é inferior à média nacional em 69
setores, sendo que em 25 destes, essa menor produtividade ainda
manifesta “comportamento de queda” nos últimos 10 anos. O Valor da
Transformação Industrial - VTI - mineiro é 20% inferior à média
nacional e 40% menor na relação com São Paulo. As gigantes estatais
mineiras (CEMIG, COPASA, CODEMIG) fizeram compras “mínimas ou
insignificantes” de fornecedores mineiros. A carga tributária estadual é
“excessiva e concentrada”.
Enfim, as propostas da FIEMG para a superação desse quadro
poderiam ter sido adotadas há oito anos, impactando a condição atual da
competitividade da economia regional: readequação tributária, formação e
capacitação profissional, política creditícia, incentivos estaduais e
municipais diversos etc. Sua excelência, o senador Aécio Neves, ainda
que não seja, de fato, um economista, tinha e tem conhecimento desses
números.
Em entrevista à “Mercado Comum”, nº 216, Machado completa:
“Sempre
me preocupei com avaliações feitas por média, uma vez que não
contemplam toda a verdade dos fatos, inclusive suas distorções. Cada vez
mais, devemos nos conscientizar de que são a microeconomia e economia
local que nos dão a exata dimensão do que ocorre.”
A propósito, a citada revista tornou público o número da
“Dívida Pública Total” do estado: R$ 67.812.919.776,51 em 31/12/2010. Ou
seja, um “papagaio” de 68 bilhões que, no calote de informações tucano,
são excluídos dos balanços políticos de seu governo e de seu sucessor.
Considerando ainda uma dívida de R$ 5.342. 359. 887,16 com a CEMIG (que
veio a público recentemente) e a atualização da anteriormente citada,
chega-se a cifras absurdas. Sempre omitidas nas imprecações do senador
mineiro.
O professor Flávio Constantino, esse sim economista e
pesquisador, em artigo publicado na imprensa mineira, mostra que a
exuberância dos números médios de Minas, pós-crise de 2008, esconde uma
dura realidade:
“Apesar do saldo comercial extremamente favorável,
os números deixam de ser tão vistosos quando comparadas as taxas de
crescimento das exportações. Na década em questão, Minas Gerais ocupa
apenas a 16ª posição. Com a crise econômica, foi um dos estados que mais
perderam em termos de renda, exportações e tributos. A crise, na
verdade, só nos fez relembrar os riscos inerentes a especialização
produtiva e comercial, nossa dependência das commodities. Até as
patentes registradas pelos mineiros estão fortemente concentradas no
setor mínerometalúrgico.”
Na sua opinião, Minas Gerais chega em 2011
ostentando uma década perdida, em termos de posicionamento estratégico
na economia: 40% das divisas arrecadadas pelo estado vem da exportação
de minério e café! Ou seja, isso é algo que há 200 anos garante o
dinamismo ou estagnação da economia regional.
Essa análise, a indicação das fontes e as conclusões constam do
informativo eletrônico nº 15, de maio de 2011, do Minas Sem Censura (www.minassemcensura.com.br).
Aécio, em seus 16 anos como deputado federal, não registra
nenhuma iniciativa sua, em termos de política de fomento industrial,
qualificação profissional, fortalecimento da pesquisa, inovação etc.
Assim, quando falar de números e estatísticas ele deveria lembrar que de te fabula narratus.*
Finalmente, tivesse o senador mineiro compromisso no tratamento
adequado dos números, poderia ele fazer também o mesmo ranking para o
ano de 2002: último da gestão de FHC, no qual ele era o presidente da
Câmara de Deputados. Mas ele sabe que se assim o fizesse, a verdade da
tragédia tucana viria à tona.
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